Um estudo exclusivo mostra que reprovar não leva o aluno a melhorar seu desempenho
Camila Guimarães
Poucas discussões têm sido tão acaloradas - e tão recorrentes - no Brasil quanto a que gira em torno da reprovação de alunos. No início deste ano, ela foi reanimada pela presidente Dilma Rousseff. Em um discurso sobre a educação no país, ela afirmou que está na hora de acabar com "essa trágica ilusão de ver aluno passar de ano sem aprender quase nada".
Em dissonância com a presidente, o Ministério da Educação (MEC) recomendava o oposto: que os alunos não sejam reprovados até o 3º ano do ensino fundamental. Uma pesquisa obtida com exclusividade por ÉPOCA mostra que o MEC está mais perto da verdade.
Segundo o economista Ernesto Faria, fundador e coordenador do portal Estudando Educação, especializado em pesquisas educacionais, o Brasil já reprova demais - 36% dos alunos de 15 a 16 anos já tiveram alguma reprovação, segundo dados do Pisa, um teste internacional de educação. "A reprovação só seria justificável se a repetência gerasse condições para que o aluno obtivesse um aprendizado adequado", diz. "Mas ela não resolve as defasagens."
Faria avaliou os dados da Prova Brasil de alunos do 5º e 9º anos de escolas públicas. Em matemática, no 5º ano, apenas 9% dos que repetiram alguma vez nas séries iniciais têm um aprendizado adequado para a idade. Entre os que nunca repetiram, a taxa é de 33% (também baixíssima, mas quatro vezes maior que a outra).
Essa conclusão reforça a posição dos educadores que defendem a progressão continuada, sistema em que o aluno só pode ser reprovado ao final de um ciclo de aprendizado (e não a cada série). A ideia é que alunos com alguma carência têm mais chance de se recuperar se, no lugar da punição, for demonstrada confiança neles. Mas o sistema de ciclos só é adotado em cerca de 25% das escolas públicas.
O principal argumento contra os ciclos é que, sem o fantasma da reprovação, os alunos não têm estímulo. Grande parte dos professores cita ainda que, sem a ameaça de notas baixas, seria difícil manter a disciplina. A própria natureza dos argumentos mostra quão distante está a escola, principalmente a pública, do ideal de aprendizado: crianças automotivadas para explorar seu potencial, com professores que servem de guias, não capatazes.
Uma segunda linha de ataque aos ciclos é de outra natureza. Afirma que o sistema é mal aplicado, que não há condições de acompanhar os alunos deficientes com o cuidado necessário. Esse ponto faz mais sentido - e há experiências malsucedidas de sistema de ciclos no país para confirmá-lo.
Mas melhorar a qualidade do ensino não é justamente criar as condições para acompanhar as crianças da forma mais individualizada possível?
Não é avaliar, motivar e dar a cada uma as condições de aprender? Manter crianças que não aprenderam o suficiente na classe pode ser um estorvo. Reprová-las, na maioria das vezes, é - como mostra a pesquisa de Faria - desistir delas.

Fonte: http://www.todospelaeducacao.org.br/comunicacao-e-midia/educacao-na-midia/14632/repetiu-mas-nao-aprendeu








