O insucesso na escola é sempre vivenciado com dor. Não só por aqueles a quem atinge mas também pela sociedade como um todo, já que é percebido como um fracasso do sistema, o que é lamentável. No entanto, o insucesso poderia ter uma função oculta - por exemplo, contribuir para a reprodução de um tipo de estratificação social.
Ademais, o fracasso nada mais é que o oposto do êxito. Mas o que vem a ser êxito? Pode-se vislumbrar pelo menos três tipos: o meramente escolar (concluir, na instituição, o percurso valorizado pela sociedade e obter o diploma), o social (alcançar um cargo, uma posição social lucrativa e valorizada) e, por fim, o pessoal (atingir a autorrealização que proporciona qualidade de vida e traz felicidade, como ser um bom profissional, útil aos seus contemporâneos). Esses três planos estão sempre interligados. Entretanto, faremos um esforço para abordar aqui a questão do fracasso sob o ângulo meramente escolar, tendo em vista que é um mal a ser combatido.
Assim sendo, é possível se considerar a avaliação como um instrumento útil e eficaz nessa batalha? Responderemos que sim, mas com uma grande condição: a de que a avaliação seja analisada sob a ótica da pedagogia do sucesso.
Ficamos tentados a dizer que ela se inscreve em uma ótica de democratização do ensino. Mas isso poderia levar-nos à impressão de estar misturando pedagogia e política. Seria possível então responder que discorrer sobre a democratização nos levaria a falar do sucesso para todos! Almejar a democratização da Educação é desejar que todos os alunos (ou ao menos a maioria) possam concluir com êxito o percurso tido pela instituição como o percurso do sucesso.
Por certo, uma grande ambiguidade cerca essa noção. Há diferentes caminhos possíveis como regra de igual valor. Mas alguns deles, ainda que a instituição não admita, são mais valorizados em termos de oportunidades profissionais e sociais que outros!
Um exemplo é o que ocorre na França, onde o caminho percorrido - por meio das disciplinas científicas e das escolas de Ensino Médio mais prestigiadas das grandes cidades - conduz os alunos às classes preparatórias para as grandes escolas e, posteriormente, às famosas Polytechnique e Ecole Normale Supérieure. A preocupação com a democratização ou com a oportunidade de sucesso para todos fará com que, em primeiro lugar, determinados estudantes não sejam afastados do caminho que a sociedade considera como sendo de excelência e que constitui o caminho de ouro rumo ao sucesso social. Afinal, por esse caminho, a seleção se dá pela eliminação. O combate a ser travado é claro: é necessário lutar contra uma seleção muito precoce, massificante e discriminatória, já que atinge aqueles que, além de tudo, são mais fracos e mais pobres também.
Naturalmente, nem todas as crianças de uma geração vão ingressar em escolas renomadas. A maioria vai se contentar com um percurso de sucesso (como conseguir um diploma do Ensino Médio) e nada mais. No entanto, sem ser capaz de fazer milagres, a avaliação tem um primeiro mecanismo de ação: recusa-se a ser reduzida ao papel de ferramenta destinada à seleção das elites. Na prática, isso pode se traduzir na negação daquilo que André Antibi (2003) chamou de constante macabra: independentemente da turma e do nível, os professores se sentem obrigados a dar um grande número de notas baixas, como se a credibilidade deles dependesse disso. Como se a curva de Gauss, ou curva normal, exprimisse uma lei natural que rege todos os fenômenos submetidos à avaliação. Como se fosse necessário identificar candidatos naturais à eliminação.
Sob tais condições, o fracasso é um artefato real, produzido pelo exercício da avaliação em si, que faz uma classificação predeterminada e nada mais é que a antecâmara da eliminação. O que podemos pensar de um médico que sempre se contenta em ver 25% de seus pacientes morrerem? Um educador tampouco é técnico de um time de futebol. Ele não deve simplesmente convocar os 11 melhores, mas obter 100% de aprovação daqueles que lhe são confiados. É exatamente esse o princípio básico da pedagogia voltada ao bom desempenho: sob as condições apropriadas, quase todos os alunos conseguem dominar os conteúdos dados. Condições essas que dizem respeito à organização pedagógica em geral e também à avaliação (Huberman, 1988).
Fonte:http://revistaescola.abril.com.br/gestao-escolar/relacao-sentidos-operacao-aritmetica-664626.shtml








