Objetivos
Examinar os interesses econômicos que motivaram as expedições marítimas nos séculos XV e XVI
Introdução
É tempo de descobrir o descobridor do Brasil, insiste a reportagem sobre o lançamento da primeira biografia de Pedro Álvares Cabral. E também de conhecer as razões basicamente econômicas que conduziram os portugueses "por mares nunca dantes navegados", até a Ásia e a América. A reportagem "Cabral, um Esquecido" e o plano de aula podem ajudá-lo a mostrar a seus alunos como foram organizadas as expedições marítimas européias dos séculos XV e XVI, que alargaram as fronteiras do mundo.
Navegar custava caro
Realizar uma expedição marítima do porte das que se organizaram em Portugal nos séculos XV e XVI exigia muita gente e muito dinheiro. Em 1415, a conquista de Ceuta, na África, marco inicial da expansão portuguesa, mobilizou mais de 200 embarcações e cerca de 80 mil homens. A expedição de Cabral, que coroou essa expansão, reunia 13 naus e caravelas e 1500 pessoas. Antes disso, os lusos haviam ocupado as ilhas da Madeira (1418) e dos Açores (1427) e navegado pela costa africana. Eram muitos barcos, muita gente, muito dinheiro. Como o pequenino Portugal conseguiu financiar essas viagens? Com que objetivos?
Em 1385, a dinastia de Avis tornou Portugal um Estado unificado e centralizado. Buscando riquezas, a Coroa e os nobres portugueses aliaram-se a mercadores que pretendiam expandir suas atividades. Mas as principais rotas de comércio com o Oriente estavam fechadas aos portugueses. O comércio de produtos orientais pelo Mar Mediterrâneo era tradicionalmente feito por Constantinopla, mas desde a conquista da cidade pelos turcos, em 1453, só os barcos venezianos tinham permissão de atracar ali para receber as especiarias trazidas por mercadores muçulmanos. Os portugueses trataram então de navegar pelo litoral africano, buscando um caminho marítimo para a Ásia.
Para viabilizar esses empreendimentos o Estado português contou não só com a ajuda de negociantes e banqueiros florentinos e genoveses, mas também com a Ordem de Cristo - a antiga Ordem dos Cavaleiros do Templo. Expulsa da França no começo do século XIV, a Ordem do Templo recebeu abrigo em Portugal. Conhecida a partir de então como Ordem de Cristo, tomou a liderança dos projetos de expansão marítima. Em 1420 o príncipe Dom Henrique, o Navegador, tornou-se administrador da Ordem de Cristo. Cabral estava ligado à ordem, e seus barcos traziam nas velas a cruz dos templários.
As expedições custavam caro, as tempestades destruíam muitos barcos, os navegantes eram bem pagos - e, mesmo assim, os reis e seus parceiros conseguiam lucros fabulosos. Além disso, no tocante às riquezas saqueadas, a Coroa ficava com o quinto real e com dois terços do que sobrasse: a guerra era um bom negócio.
O acúmulo de riquezas e a busca de novos caminhos comerciais expressava as idéias do mercantilismo, fase inicial de desenvolvimento do capitalismo. Para os mercantilistas, seria rica a nação que reunisse metais preciosos, tendo para isso de manter uma balança comercial favorável e encontrar novas jazidas.
Além das motivações econômicas, que foram predominantes, houve uma relação entre a expansão marítima e o espírito das cruzadas. A conquista de Ceuta foi saudada como uma cruzada, e em 1418 o papa Martinho V atribuiu esse caráter aos empreendimentos marítimos portugueses, devendo as terras conquistadas pertencer à Ordem de Cristo.
A recompensa dos cruzados já havia sido anunciada pelo papa em 1098, por ocasião da primeira cruzada: "A todos os que partirem e morrerem no caminho, em terra ou mar, ou que perderem a vida combatendo os pagãos, será concedida a remissão dos pecados".
Os navegantes precisavam dessa promessa. Muitos acreditavam que abaixo da linha do Equador havia ameaçadores monstros marinhos, além de tempestades, furacões e barcos inimigos. Assim, participar de uma viagem como a de Cabral era saber que as chances de não retornar seriam muito grandes. Pelo menos a salvação da alma estaria garantida.
Atividades
1. Leia a reportagem e o texto de apoio com os alunos e organize grupos de pesquisa e discussão sobre os temas associados à viagem de Cabral e outras expedições marítimas:
organização: custos, equipamentos, rotas, mapas, instrumentos etc.;
a Ordem de Cristo e o caráter de cruzada das expedições;
o papel dos mercadores e banqueiros no desenvolvimento do capitalismo;
Estado português e mercantilismo;
2. Os resultados das pesquisas podem ser expostos em um painel que estabeleça as ligações entre os temas e componha o cenário da realização das expedições marítimas dos séculos XV e XVI.
A nau da pimenta
"Salário" vem de sal, entregue como pagamento aos legionários romanos. Os navegantes portugueses, por sua vez, recebiam a maior parte do seu pagamento em pimenta e outras especiarias orientais, que na Europa valiam seu peso em ouro. A divisão era desigual. Cabral, comandante da armada de 1500, recebeu 35kg de ouro e alguns privilégios, entre os quais o de embarcar nada menos que 30t de pimenta, que seriam compradas pelo rei a um preço sete vezes superior ao pago na Índia; ele também poderia trazer, sem pagar impostos, 10 caixas de outras especiarias. Os capitães das naus e caravelas poderiam trazer 3t de pimenta e 6 caixas de especiarias; cada piloto, 1800kg de pimenta e 4 caixas de especiarias, e cada marinheiro, 600kg e uma caixa de especiarias. Um grumete trazia 300kg de pimenta e meia caixa de especiarias, e um soldado, 180kg de pimenta.
Vida de marinheiro
Nos séculos XV e XVI, os marinheiros comprovaram que os temidos monstros do Atlântico não existiam. Mas verificaram a presença de ameaças reais e ainda mais temíveis, a começar pelas condições a bordo de uma caravela ou nau portuguesa numa longa expedição. A água, guardada em tonéis, era racionada desde o início da viagem. Com o tempo, ficava malcheirosa e repleta de bichos. O alimento básico era um biscoito duro e salgado, às vezes atingido pelo bolor, que os marinheiros tinham de repartir com as baratas. A urina dos ratos se infiltrava pelos sacos de farinha e outros mantimentos; a tripulação costumava capturar os roedores e comê-los. A falta de higiene favorecia a difusão de doenças como a sarna, e os piolhos se multiplicavam tanto que chegavam a matar os portadores. Outra doença terrível era o escorbuto, causado pela falta de vitamina C. Os primeiros europeus atingidos pelo escorbuto foram os marinheiros de Vasco da Gama, em 1497. Só no século XVIII é que se passou a evitar a enfermidade fornecendo-se à tripulação legumes e frutas frescas, especialmente limão e outros cítricos.
Além disso, a construção naval dava na época os primeiros passos e muitas naus, precariamente construídas, não resistiam às tempestades. Um piloto valioso como Bartolomeu Dias, o primeiro a ultrapassar o cabo da Boa Esperança, no extremo sul da África, e a navegar pelo Oceano Índico, afundou com seu navio durante a viagem de Cabral. Nicolau Coelho, que esteve na Índia com Vasco da Gama e Cabral, também morreu no mar em 1504.
Fonte:http://revistaescola.abril.com.br/ensino-medio/punhado-cravo-canela-427277.shtml







